Presença terapêutica: por que você é a sua principal ferramenta de trabalho

Sumário

Você pode ter suas técnicas, seus mapas, seus óleos, seus protocolos.
Pode ter formações, certificados na parede, pós-graduação, supervisões, retiros.

Tudo isso importa.
Mas, no momento em que a porta se fecha e você se vê diante da vulnerabilidade nua de outro ser humano, uma coisa ganha o centro: a forma como você está ali.

A maneira como você respira.
O jeito como você olha.
O que acontece dentro de você quando o outro começa a mostrar o que quase nunca mostra para ninguém.

É aí que aparece a verdade: a pessoa do terapeuta como ferramenta de trabalho é o eixo de tudo.
E a qualidade dessa ferramenta se expressa em uma dimensão central: a qualidade da sua presença terapêutica.

“Presença amorosa” virou frase de palestra, legenda de Instagram, slogan de formação.
Este texto é um convite para resgatar esse conceito da superficialidade: – especialmente se você trabalha com corpo, toque, energia e Tantra – e para cuidar dessa presença como a sua principal ferramenta de trabalho.


O que é presença terapêutica de verdade

De forma simples, podemos dizer que:

Presença terapêutica é a capacidade do terapeuta de estar inteiro, atento e disponível no aqui-agora com o cliente, oferecendo um campo seguro onde as experiências podem emergir sem pressa de consertar, interpretar ou interromper o que nasce.

Ela não é apenas estar na sala.
Não é apenas “prestar atenção”.
Não é apenas “estar mindful”.

É uma forma de estar que aparece:

  • no corpo,
  • no olhar,
  • na respiração,
  • nas pausas,
  • na maneira como você sustenta a história do outro sem se perder da sua.

É um modo de presença em que o seu sistema nervoso se torna um lugar onde o cliente pode existir – com dor, vazio, raiva, confusão, prazer ou êxtase – sem ser apressado, corrigido, julgado ou seduzido a sair de si.

É a base invisível sobre a qual qualquer técnica se apoia.
Sem presença terapêutica, até a melhor intervenção vira forma vazia.

É provável que você já tenha vivido momentos assim em sessão, mesmo sem usar este nome. É disso que estamos falando aqui.

Terapeuta centrado no consultório, mostrando a pessoa do terapeuta como ferramenta de trabalho no cuidado com o cliente.

Não é só atenção ou mindfulness

Muita gente confunde presença terapêutica com:

  • estar concentrado;
  • estar em atenção plena;
  • estar “neutro”.

Tudo isso pode ajudar, mas não é suficiente.

Presença terapêutica implica:

  • uma estrutura clara (contrato, espaço, função, limites);
  • uma intenção de cuidado, não de autoafirmação;
  • uma ética na relação terapêutica que reconhece a vulnerabilidade do cliente;
  • responsabilidade pelo impacto do que você faz e deixa de fazer.

Não é só consciência do momento.
É consciência do momento e da posição que você ocupa na vida daquele cliente.

Presença terapêutica, corpo e sistema nervoso

Quando você está com alguém em sessão, não são só duas mentes conversando.
São dois sistemas nervosos se encontrando.

Se o seu corpo está minimamente aterrado, se a respiração tem espaço, se você não está correndo por dentro, o corpo do cliente percebe.
Não em palavras, mas em sensação, algo como:

  • “Aqui tem tempo.”
  • “Aqui eu não preciso me defender o tempo inteiro.”
  • “Aqui eu posso sentir um pouco mais.”

A presença terapêutica é também uma forma de co-regulação:
o seu sistema nervoso oferece uma espécie de “colo invisível” para o sistema nervoso do cliente.

Dessa base, pode nascer a coragem de:

  • sentir,
  • lembrar,
  • chorar,
  • tremer,
  • ou simplesmente ficar em silêncio.

Na prática, desenvolver presença terapêutica passa por perceber como está o seu corpo durante as sessões:

  • Você está respirando ou prendendo o ar?
  • Seu peito está aberto ou encolhido?
  • Você está no chão do encontro ou apenas na cabeça, analisando?
Ilustração de duas pessoas conectadas por linhas suaves, representando a co-regulação entre terapeuta e cliente.

Um conceito com raízes profundas

O que chamamos aqui de presença terapêutica conversa com:

  • a ideia de encontro real entre duas pessoas, presente em abordagens humanistas;
  • a noção de que o terapeuta oferece um “ambiente de sustentação” onde o cliente pode se reorganizar;
  • abordagens somáticas que veem o corpo como lugar privilegiado da experiência;
  • práticas tântricas e energéticas que reconhecem o campo sutil do encontro.

Mas, mais do que teoria, presença terapêutica é algo que se encarna sessão após sessão, no chão da sala de atendimento, e que você escolhe colocar à frente das técnicas.

Presença e técnica: quem serve quem?

A técnica é importante. Formações são importantes. Protocolos podem ser muito úteis.
O problema não é ter técnica.
O problema é quando a técnica vira escudo para não sentir.

A mesma manobra de toque, por exemplo, pode acontecer de dois jeitos:

  • como checklist mecânico:
    “agora faço isso, depois aquilo, porque é o protocolo”;
  • ou como gesto que nasce de uma escuta real, atento à respiração, às micro-retrações e micro-entregas do corpo do cliente.

Em ambos os casos, a técnica é a mesma.
Mas a experiência do cliente é completamente diferente.

A técnica não é inimiga da presença.
Ela só precisa estar a serviço da presença terapêutica, e não o contrário.

E é totalmente humano, em alguns momentos, se esconder atrás da técnica quando a vulnerabilidade do outro te toca demais. O caminho não é se condenar por isso, mas perceber quando acontece – e, aos poucos, voltar para o encontro.


Quando a presença se perde: o que ela não é

Antes de aprofundar o que chamamos de presença amorosa, é importante limpar o terreno.
Existem formas de estar em sessão que se parecem com presença, mas que, na prática, nos afastam dela.

1. Presença terapêutica não é pena

A pena te coloca acima.
Você olha o cliente de um lugar elevado, como quem “sabe mais” ou “está melhor”.

Por dentro, a voz soa como:

“Coitado, olha pelo que ele está passando…”

Na pena, o cliente é visto como alguém frágil demais, quebrado demais, incapaz demais.

Exemplo de situação:
O cliente está chorando, falando de um término difícil.
Por dentro, você sente um aperto, acha aquilo injusto, sente raiva da outra pessoa envolvida. Então, para “ajudar”, diz:

“Você não merece isso, você é maravilhoso(a), tem alguém muito melhor te esperando, não fica assim…”

Parece acolhimento, mas, muitas vezes, é uma forma de não entrar na profundidade da dor.
A pena apressa, “arruma”, distrai.

A presença terapêutica, ao contrário, se senta ao lado, no mesmo chão.
Ela não tem medo de se sujar com a poeira da humanidade do outro, porque reconhece a própria poeira. Em vez de olhar de cima, compartilha o chão.

2. Presença terapêutica não é fusão/simpatia

Na fusão, você se joga junto dentro do turbilhão.
Se identifica tanto com a dor do cliente que se afoga com ele.

Perde a referência interna, perde o eixo, perde a clareza.
Sem perceber, acrescenta mais caos ao caos.

Exemplo de situação:
O cliente fala de uma situação de abuso emocional que lembra uma história sua.
Você se vê com lágrimas nos olhos, a garganta fecha, a vontade é abraçar e dizer:

“Eu sei exatamente como é, passei por algo muito parecido…”

De repente, a sessão gira em torno de você, mesmo que quase não se fale da sua história.
O campo se encharca da sua emoção, não da experiência do cliente.

A presença que sustenta o processo é âncora, não onda.
Ela não nega a dor, mas também não se confunde com ela.
Oferece estabilidade para que o outro possa sentir sem se desintegrar, porque alguém está segurando o leme com os pés no chão.

Barco ancorado em mar agitado, simbolizando a qualidade da presença terapêutica como apoio estável em meio às emoções.

3. Presença terapêutica não é projeção

Projeção é quando você usa o campo do cliente para descarregar suas próprias necessidades espirituais, emocionais ou narcísicas.

É o impulso de “enviar luz”, “salvar”, “curar”, “iluminar” o outro para confirmar a imagem que você tem de si mesmo como terapeuta especial.

Exemplo de situação:
Você percebe que um cliente te lembra um familiar que “você não conseguiu salvar”.
Ele fala de cansaço, de dúvida, de quebrar um ciclo.
Você sente urgência, começa a empurrar o processo, sugere exercícios, decisões, retiros, como se precisasse que ele mude logo — para aliviar algo em você.

Na relação terapêutica, você não precisa ser um holofote.
Seu papel é ser uma lâmpada estável que ilumina o cômodo o suficiente para que o outro possa encontrar o próprio caminho no escuro.

Você sustenta o espaço; quem caminha é o cliente.

4. Presença terapêutica não é distanciamento frio

Diante do medo de “se envolver demais”, muitos terapeutas vão para o outro extremo:

  • se refugiam na cabeça;
  • falam em jargão;
  • viram observadores distantes da experiência do cliente.

Por fora, parece neutralidade.
Por dentro, é defesa.

Exemplo de situação:
O cliente fala de um luto recente.
Em vez de sentir junto, você se apressa em explicar fases do luto, mecanismos psíquicos, teorias sobre apego.
Tudo certo teoricamente, mas ninguém esteve ali com ele.

Presença não é ser pedra.
É estar tocável, sem se perder; permeável, mas com bordas.


Os pilares internos da qualidade da presença terapêutica

A qualidade da presença terapêutica não nasce do acaso.
Ela se apoia em pilares internos que você cultiva diariamente – dentro e fora das sessões.

Pilar 1 – Coragem de não desviar o olhar

Presença é, antes de tudo, coragem de testemunhar a experiência do cliente – dor, vazio, raiva, vergonha, prazer, confusão – sem vacilar.

É a capacidade de:

  • não apressar o que está nascendo;
  • não tentar consertar o que é desconfortável para você;
  • não traduzir imediatamente o que é misterioso.

Exemplo de situação:
Alguém começa a tremer ao falar de um abuso passado.
Sua tendência automática poderia ser dizer “respira fundo, pensa em algo bom, vamos sair disso”.
A coragem da presença é ficar ali, respirando junto, comunicando com o corpo e com o olhar:

“Eu estou aqui. Não preciso te tirar daí correndo. Você não está sozinho(a).”

Você oferece o seu sistema nervoso como um campo seguro onde todas as expressões do cliente podem aparecer.
Sua calma, sua respiração, o modo como você permanece dão permissão para que o outro exista como é naquele momento.

Aqui, a presença é um “sim” silencioso:

“O que você sente tem lugar aqui. Eu não vou fugir.”

Pilar 2 – Amor como respeito feroz e ética na relação terapêutica

Na nossa prática, amor não é afeto fofinho.
Amor é, antes de tudo, ética na relação terapêutica.

É o amor que:

  • define e sustenta limites claros;
  • diz “não” quando é preciso;
  • não confunde intimidade com fusão ou sedução;
  • não usa o cliente para preencher as próprias carências.

Existe ainda um ponto crucial: a assimetria de poder.
O cliente chega vulnerável. Você está em uma posição de poder:

  • sabe mais sobre o processo;
  • conduz o contexto da sessão;
  • decide horários, valores, formatos.

Presença amorosa implica consciência desse poder e uso responsável dele.
Você não está no mesmo lugar do cliente – e justamente por isso precisa proteger a relação.

A presença amorosa se manifesta como respeito feroz:
a firmeza que cria um espaço seguro para que a intimidade de cura possa florescer.

É o campo em que o cliente sabe, no corpo, que não será:

  • invadido;
  • usado;
  • manipulado;
  • exposto.

Aqui, estar presente é juntar:

  • carinho com limites;
  • acolhimento sem perder a estrutura;
  • escuta com responsabilidade.

Pilar 3 – Humildade: ser canal, não a fonte da cura

A cura não vem de você.
Ela vem da própria vida que pulsa no cliente.

Você não é a chuva; é o jardineiro que:

  • prepara a terra;
  • remove pedras;
  • protege as raízes;
  • cria condições para que a água da vida chegue.

Quando você se lembra disso:

  • a pessoa do terapeuta como ferramenta de trabalho se torna canal, não protagonista;
  • você deixa de precisar provar o seu valor em cada sessão;
  • diminui a urgência de gerar “resultados incríveis” o tempo todo.

Humildade também significa reconhecer quando você falha na presença:

  • quando se distrai;
  • quando se fecha;
  • quando entra em defesa.

Nesses momentos, a presença volta quando você percebe, assume internamente e, quando fizer sentido, repara com o cliente.

Às vezes, basta um:

“Percebo que por um momento eu me distanciei aqui dentro. Estou voltando. Quero te ouvir melhor.”

Essa humildade é, em si, uma forma poderosa de presença terapêutica.

Terapeuta estudando e fazendo anotações em ambiente tranquilo, ilustrando como desenvolver presença terapêutica com estudo e reflexão.

Quando a presença terapêutica é testada

Há situações que testam a sua qualidade de presença terapêutica ao limite.
Ao longo dos anos de atendimento, fica claro que é nesses instantes que a verdade do seu ofício aparece.

Choro intenso, colapso, desorganização

Quando o cliente chora muito, entra em colapso ou parece desorganizado, sua mente pode querer:

  • interromper;
  • dar conselhos;
  • tirar logo daquela sensação.

Presença terapêutica, aqui, é:

  • suavizar o próprio corpo;
  • manter a respiração um pouco mais ampla;
  • talvez dizer pouco – “eu estou aqui” –, e não muito.

Você não precisa “arrumar” o choro.
Você precisa estar presente para um corpo que, talvez, nunca pôde chorar acompanhado.

Silêncio prolongado

O silêncio pode ser lugar de encontro ou campo de fuga.
Na sua ansiedade, você pode querer preenchê-lo com perguntas, interpretações, histórias suas.

Presença, nesse contexto, é:

  • suportar o silêncio sem se sentir incompetente;
  • observar o que acontece dentro de você nesse espaço;
  • quando fizer sentido, checar com o cliente:

“Percebo que estamos em silêncio há um tempo. Como é esse silêncio para você?”

Não é abandonar o cliente no vazio.
É permanecer junto no vazio, sem apressar uma saída.

Terapeuta e cliente sentados em silêncio compartilhado, mostrando a presença terapêutica na prática ao sustentar o espaço sem pressa.

Hostilidade, crítica, ataque

Às vezes, a presença é testada quando o cliente:

  • te critica;
  • te acusa;
  • parece bravo com você ou com o processo.

Sua defesa pode querer rebater, explicar, justificar.
Presença terapêutica é:

  • escutar o que vem por baixo daquela hostilidade;
  • reconhecer o impacto real (se houver);
  • sustentar o limite sem retaliar.

Às vezes, dizer:

“Eu ouço que algo do que eu fiz, ou de como eu estive aqui, te doeu. Quero entender melhor.”

já é um ato profundo de presença e responsabilidade.

Cliente que “não sente nada”

Há pessoas que chegam dizendo:

  • “Eu não sinto nada no corpo.”
  • “Nada mexe comigo.”
  • “Acho que comigo não funciona.”

A tentação é forçar uma experiência, insistir em técnicas, interpretar demais.

Presença, aqui, é:

  • não patologizar a anestesia;
  • reconhecer que ela já foi um recurso de sobrevivência;
  • oferecer um campo onde, pela primeira vez, não sentir também pode existir sem crítica.

Você segue fazendo convites gentis para o corpo, mas sem fazer da “experiência intensa” uma prova de valor.

Falhas de presença e reparação

Você não é um robô consciente 100% do tempo.
Você vai:

  • se distrair;
  • se cansar;
  • se pegar pensando em outra coisa;
  • sentir irritação, impaciência, medo.

A questão não é não falhar.
É o que você faz com isso.

Presença terapêutica inclui:

  • notar quando você saiu de si;
  • voltar;
  • tratar a si mesmo com honestidade e compaixão;
  • em alguns casos, nomear algo em sessão;
  • levar situações para supervisão.

Falhas de presença são inevitáveis.
Negá-las te endurece.
Assumi-las te humaniza – e aprofunda a relação.

Sombras do “bom terapeuta”

Existe um personagem silencioso que assombra muitos profissionais: o “bom terapeuta”.

Ele é:

  • sempre sereno;
  • sempre centrado;
  • sempre “consciente”;
  • nunca se confunde;
  • nunca erra.

Tentar encarnar esse personagem te afasta da presença real.
Você passa a atuar um papel, com medo de ser desmascarado.

Presença terapêutica não é perfeição.
É um compromisso contínuo de voltar para o encontro, de se revisar, de pedir ajuda quando necessário.


Presença terapêutica no corpo, no toque e no campo tântrico

Para terapeutas corporais, energéticos e tântricos, tudo isso ganha outra camada: o corpo está diretamente em jogo.

O seu corpo como bússola

Antes de qualquer leitura energética, lembre:

  • seu corpo fala o tempo todo.

Ele te dá sinais, por exemplo:

  • um aperto no peito quando algo é demais;
  • um nó na garganta diante de temas que te atravessam;
  • um peso nos ombros quando você está “segurando demais”;
  • uma expansão suave quando algo está alinhado.

Qualidade da presença terapêutica inclui escutar esses sinais sem se confundir com eles:

  • “O que essa contração em mim está me mostrando?”
  • “Isso é meu? É do campo? É de ambos?”

Seu corpo é parte central da ferramenta de trabalho.

Quando o corpo do cliente está nas suas mãos

No trabalho corporal e tântrico, o corpo do cliente:

  • pode estar nu;
  • pode expressar sons, tremores, movimentos involuntários;
  • pode manifestar vergonha, prazer, medo, raiva.

Presença terapêutica, aqui, se expressa em movimentos simples, porém profundos:

  • esclarecer, antes da sessão, que o cliente pode, a qualquer momento, pedir para mudar, pausar ou parar;
  • durante o toque, escutar primeiro o corpo — o seu e o do cliente — em vez de puxá-lo o tempo todo para a cabeça com perguntas;
  • ajustar intensidade, ritmo ou forma de contato a partir dessa escuta fina;
  • e, quando os sinais forem difíceis de ler, usar poucas palavras para oferecer referência e segurança, sem transformar o momento em um interrogatório.

É recusar a ideia de que “se é para desbloquear, tem que ir até o fim”.
Não tem.

Presença amorosa protege o corpo do cliente inclusive das suas boas intenções.

Campo erótico/energético e ética na relação terapêutica

Em contextos tântricos e corporais, o campo pode envolver:

  • atração;
  • excitação;
  • fantasia;
  • idealização;
  • projeções espirituais.

Isso pode acontecer:

  • no cliente;
  • em você;
  • no campo entre ambos.

Presença terapêutica não é fingir que isso não existe.
É reconhecer internamente, sem atuar.

Alguns sinais de alerta:

  • você precisa que o cliente te ache especial, diferente de todos os outros profissionais;
  • você se pega buscando olhares, elogios, insinuações para se sentir vivo(a);
  • você começa a flertar, mesmo sutilmente;
  • você passa a justificar invasões como “parte da cura”.

Nesses casos, a ética na relação terapêutica pede:

  • pausa;
  • supervisão;
  • às vezes, encaminhamento.

Orientações de segurança importantes:

  • Se você se percebe repetidamente em situações sexualizadas ou ambíguas com clientes, isso não é “só o campo tântrico”: é um sinal de que algo precisa ser olhado com muita seriedade.
  • Se você já ultrapassou limites (mesmo “sem querer”), isso não é motivo para se odiar, mas é motivo para buscar ajuda imediata.
  • Se você sente que precisa da energia erótica dos clientes para se sentir vivo(a), é hora de cuidar de você antes de continuar atendendo.

Presença terapêutica, nesse contexto, é um compromisso radical com o não abuso – em nenhum nível.

Sala de atendimento organizada, com terapeuta preparando o espaço, simbolizando a ética na relação terapêutica em trabalhos corporais e energéticos.

Cuidar da ferramenta: você

Você é a ferramenta do seu trabalho.
E ferramenta precisa de cuidado, afinação, descanso.

Antes, durante e depois da sessão

Antes da sessão

Crie um pequeno ritual, mesmo que de 2–5 minutos:

  • desligar telas;
  • checar a postura;
  • fazer 3 respirações mais longas, sentindo o apoio do corpo na cadeira ou no chão;
  • se perguntar:

“Eu estou aqui ou ainda preso em outra conversa, no trânsito, no feed?”

Lembrar:

“Minha função não é performar uma sessão perfeita. É sustentar presença.”

Durante a sessão

Enquanto o encontro acontece:

  • note quando sua mente dispara e se afasta;
  • perceba se o corpo endurece, acelera, foge;
  • use pequenas âncoras:
    • sentir os pés;
    • ajustar levemente a postura;
    • soltar o maxilar.

Esses micro-movimentos te trazem de volta para o encontro, sem fazer barulho.

Depois da sessão

Evite sair correndo direto para o próximo compromisso.
Se possível, reserve alguns minutos para:

  • respirar, alongar, movimentar o corpo;
  • soltar o que ficou preso (um suspiro, um bocejo, um tremor leve);
  • anotar rapidamente o que precisa ser levado para supervisão ou reflexão.

É assim que você evita que a sala de atendimento vá para casa com você em bloco.

Burnout, agenda e limites

Não existe presença sustentável com:

  • agenda desumana;
  • zero descanso;
  • nenhuma vida fora do trabalho.

Aos poucos, isso cobra:

  • cinismo;
  • automatismo;
  • perda de sensibilidade;
  • irritação silenciosa.

Observe:

  • quantos atendimentos por dia o seu corpo realmente aguenta;
  • quais sinais de exaustão já estão aparecendo (insônia, anestesia, desânimo);
  • se você está tendo espaço para a sua própria vida, relações, descanso.

Cuidar da qualidade da presença terapêutica inclui rever a forma como você organiza seu trabalho.

Terapeuta em momento de pausa ao ar livre, mostrando como a qualidade da presença terapêutica depende de descanso e limites saudáveis.

Supervisão e processo pessoal

Supervisão e processo terapêutico próprio não são luxo.
São parte da ética na relação terapêutica.

Ninguém sustenta presença profunda sozinho, por muito tempo, sem:

  • um lugar para falar do impacto dos atendimentos;
  • alguém que te confronte com amor quando você se perde;
  • um espaço onde você possa ser vulnerável sem ser “o terapeuta”.

Quanto mais intenso for o campo em que você atua (trauma, sexualidade, energia, Tantra), mais importante isso se torna.

Iniciantes x terapeutas experientes

Se você está começando:

  • é provável que a ansiedade de “fazer certo” seja grande;
  • a tentação é se esconder atrás da técnica, do script, da postura “profissional demais”.

Se você já atende há anos:

  • talvez o risco seja automatizar;
  • fazer sessões corretas, mas mornas;
  • funcionar no piloto automático.

Em ambos os casos, o chamado é o mesmo:

Voltar para a pergunta:
“Eu estou aqui com essa pessoa agora?
Eu consigo sentir algo verdadeiro enquanto estou com ela?”

Presença terapêutica em atendimentos online

No online, a presença terapêutica continua existindo – só muda de roupa.

Cuidados simples ajudam:

  • checar se o ambiente está minimamente silencioso e privado;
  • desligar notificações de celular e computador;
  • manter o corpo presente, não só o rosto na tela;
  • lembrar de respirar, de olhar para a câmera em alguns momentos, para que o cliente sinta que está sendo realmente visto.

Mesmo através de uma tela, o cliente percebe se você está com ele ou em mil abas internas.


Perguntas frequentes sobre presença terapêutica

1. O que é presença terapêutica?

É a capacidade do terapeuta de estar inteiro, atento e disponível no aqui-agora com o cliente, oferecendo um campo seguro onde suas experiências podem emergir sem serem apressadas, julgadas ou corrigidas.

É uma forma de estar que se manifesta no corpo, na escuta, nos limites e na ética – não apenas na mente.

2. Por que a pessoa do terapeuta é a principal ferramenta de trabalho?

Porque, antes de qualquer técnica, o que realmente toca o cliente é como você está com ele:

  • seu olhar;
  • sua escuta;
  • seus limites;
  • sua honestidade;
  • sua calma (ou falta dela).

A pessoa do terapeuta como ferramenta de trabalho é o filtro por onde passa tudo – inclusive as técnicas. Quando a ferramenta está cega, tensa ou carente, a técnica perde potência e pode, inclusive, ferir.

3. Como desenvolver presença terapêutica na prática?

Alguns caminhos fundamentais:

  • cultivar auto-observação e escuta do próprio corpo;
  • fazer processo terapêutico pessoal, incluindo trabalho corporal, quando possível;
  • ter supervisão regular, especialmente em campos intensos (trauma, sexualidade, Tantra);
  • criar rituais simples antes, durante e depois das sessões para se aterrar;
  • revisar constantemente a própria ética e os limites com ajuda de pares.

Presença não nasce pronta. Ela é prática diária.

4. E quando eu não consigo estar presente?

Isso acontece.
Às vezes, sua vida está atravessada demais, seu corpo está esgotado, seu coração está ocupado por outra dor.

Algumas possibilidades:

  • reconhecer internamente: “hoje eu não estou bem para segurar tanto”;
  • quando possível, remarcar uma sessão importante em vez de atender “no automático”;
  • levar isso para supervisão ou terapia, em vez de esconder de si mesmo;
  • ser honesto o suficiente para ajustar sua agenda e pedir ajuda.

Presença terapêutica também é saber dizer “agora não dou conta” e proteger o cliente de você quando necessário.

5. Presença terapêutica significa nunca me emocionar?

Não.
Você é humano.

Presença terapêutica não é ausência de emoção; é:

  • poder ser tocado sem se afogar;
  • perceber quando a emoção é sua e quando é do campo;
  • não colocar o cliente para cuidar de você.

Lágrimas podem aparecer nos seus olhos, a voz pode embargar, o corpo pode se sensibilizar.
O ponto é: quem você está servindo naquele momento?
O processo do cliente, ou a sua necessidade de extravasar?

6. Como saber se a minha presença está realmente ajudando o cliente?

Alguns sinais possíveis:

  • o cliente começa, aos poucos, a trazer temas mais verdadeiros;
  • o corpo dele relaxa um pouco mais na sua presença;
  • a respiração fica menos presa;
  • ele se sente mais à vontade para dizer “não” e colocar limites;
  • você sente que não precisa “forçar” resultado: as coisas começam a se mover no tempo do cliente.

Você pode, inclusive, perguntar em algum momento:

“Como é para você estar aqui comigo?
O que neste espaço te ajuda? O que atrapalha?”

Presença também se afina escutando o feedback do outro.


Para concluir: afine a sua principal ferramenta

No fim das contas, presença terapêutica não é um conceito bonito para colocar no site ou no currículo.

É um compromisso diário com a forma como você se coloca diante de quem te confia o corpo, a história, a alma.

Antes de cada sessão, antes de estender a mão para tocar uma história ou um corpo:

  • recolha-se;
  • volte para casa em você;
  • aterre no seu próprio chão;
  • lembre-se dos seus limites e da sua humanidade;
  • peça ajuda quando perceber que está além do que consegue sustentar sozinho(a).

É assim que você afina, dia após dia, a única ferramenta que realmente importa na sala de atendimento:

você, presente.

Comente o que achou:

Uma resposta

  1. Gilson, esse artigo que você escreveu está incrível!!! A base de um bom terapeuta é a PRESENÇA e o legal é que isso eu aprendi com você, no começo eu me questionava, mas o que é essa presença que o Gilson tanto fala e com o passar do tempo e dos cursos eu fui entendendo

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